Vou começar a escrever aqui, e queria te contar por quê
São nove e pouco da noite. A casa está quieta, minha filha finalmente dormiu, o Léo está resolvendo alguma coisa no computador e eu estou aqui, na mesa da cozinha, com uma caneca de chá de camomila com capim-limão que já esfriou faz meia hora.
É a primeira vez em muito tempo que eu sento pra escrever alguma coisa que não seja tabela de produção, planilha de custo ou relatório pra inspeção.
E olha, faz um tempo que eu queria fazer isso.
Eu vou começar a escrever aqui. Neste espaço, sobre o que acontece dentro da porteira desta fazenda. E antes de qualquer coisa, eu queria te explicar por que resolvi fazer isso agora.
A pergunta que eu ouço toda semana
Não tem visita que chegue aqui e não pergunte a mesma coisa.
Quantas vacas você tem? Elas ficam soltas mesmo? Esse queijo demora quanto tempo pra ficar pronto? Por que a manteiga de vocês é tão amarela? O que é aquele losango escrito ARTE no rótulo?
Eu respondo tudo, sempre com o maior prazer, geralmente com as mãos sujas de alguma coisa. Mas responder uma pessoa de cada vez, apoiada no batente da porta da queijaria, tem um limite óbvio.
Sabe quantas pessoas comem os nossos produtos e nunca vão poder subir essa estrada de terra pra perguntar? Muitas. E é justamente pra elas que eu quero escrever.
Quem está do outro lado do rótulo
Meu nome é Samara Lopes Gatto. Eu nasci e fui criada aqui no Paiolinho, distrito de Parapeúna, em Valença, no Rio de Janeiro, a 643 metros de altitude. Sou médica veterinária, mestre e doutora pela UFRRJ.
Eu era pra estar dando aula em algum lugar agora. Era esse o plano, e era um plano muito bem feito.
Aí eu conheci o Léo. E aqui eu preciso desmontar uma versão bonitinha que muita gente imagina: ele era o rapaz da cidade que sempre ia para roça aos finais de semana. O Léo já tinha fazenda no sangue, já sabia o que era acordar cedo e sujar a bota, os valores das amizades no campo, de viver com a natureza. O que ele queria mesmo era voltar. Ele me viu, decidiu ali que ia se casar comigo e ia morar no campo, e quando esse homem decide uma coisa, ele consegue.
Eu é que ainda estava com a cabeça na tese. Imaginava voltar pra roça lá pelos cinquenta anos, abrir uma fábrica de sorvete, com a carreira acadêmica resolvida e um chapéu bonito. Vim bem antes. E não me arrependo nem um pouquinho.
Nessas terras minha família produz leite desde 1900, quando meu trisavô Joaquin chegou aqui. Depois dele veio o Orestes, meu bisavô. Depois o vô Manuel, que graças a Deus ainda está por aqui pra corrigir minhas histórias. Depois o meu pai, o Donizete. E aí eu, a quinta geração e a primeira da família a transformar esse leite em queijo.
Hoje são umas 35 vacas em lactação, uns 350 litros de leite por dia, 8 hectares de piquete e um ateliê onde nascem os queijos maturados, a manteiga, o iogurte e o doce de leite que a vó Tude me ensinou a fazer.
O que você vai encontrar por aqui
Quatro assuntos, basicamente, e eles se misturam o tempo todo.
O primeiro é o caminho do capim até o leite: como as vacas vivem, o que elas comem, por que a gente não compra ração nem coloca concentrado no cocho e o que isso faz com o leite que sai daqui. Tem muita conta e muita veterinária nessa parte, e eu prometo explicar tudo.
O segundo é como as coisas são feitas de verdade, o passo a passo mesmo, sem romantizar. Por que a gente descarta o primeiro jato de leite de cada teta. O que muda num queijo entre vinte e dois dias e três anos de maturação. Por que manteiga de verdade é amarelo-ouro e a do mercado é branquinha.
O terceiro é sobre o que você está levando pra casa quando compra um artesanal: o que significa o Selo ARTE, o que é inspeção SIM, o que a palavra "artesanal" obriga e o que ela não obriga. Isso aqui é o assunto que mais me irrita e que menos gente explica direito.
E o quarto é a nossa história. Cinco gerações, a vó Tude, o Joaquin, este chão.
Agora a parte que eu preciso confessar
Eu não sou escritora. Sou veterinária. Meu treino é escrever artigo científico, que é exatamente o tipo de texto que ninguém aguenta ler.
Então é bem provável que eu escorregue. Que um texto saia comprido demais, que outro saia técnico demais, que eu me empolgue explicando ciclo de pastejo e você durma no meio. Vai acontecer. Peço desde já um pouco de paciência.
Também não vou marcar dia pra aparecer aqui. Vaca não tira folga, queijo não espera, criança adoece, e tem outro bebê chegando em novembro pra bagunçar de vez os meus horários. Escrevo quando der, e vai dar bastante.
Mas tem uma coisa que eu prometo de verdade, e é a única que realmente importa: eu não vou escrever nada aqui que eu não possa provar. Nenhum número inventado, nenhuma promessa de saúde que a ciência não sustenta, nenhuma daquelas frases bonitas de embalagem que não querem dizer nada. Se eu não souber, eu vou dizer que não sei. Se eu errar, eu volto aqui e corrijo.
Eu passei anos da minha vida aprendendo a duvidar das coisas antes de afirmar. Seria uma pena jogar isso fora justo agora.
Por que isso importa pra mim
Tem uma coisa que muda quando você vira mãe. Você começa a pensar no que fica.
Este lugar aqui vai fazer cento e vinte e seis anos na nossa família. Ele atravessou cinco gerações de gente que acordou às cinco da manhã pra tirar leite, sem nunca ter escrito uma linha sobre isso. Tudo o que eu sei, eu aprendi olhando: a minha avó fazendo doce, o meu pai lidando com vaca, a minha mãe na cozinha.
Escrever é o meu jeito de não deixar isso se perder. E, com um pouco de sorte, de fazer você entender por que um queijo daqui custa o que custa e demora o que demora.
O chá esfriou de vez. Amanhã a ordenha é às seis, como sempre foi, como era no tempo do vô Manuel.
Mas eu comecei. E fico muito feliz que você tenha lido até aqui.
No próximo texto eu vou te contar por que as minhas vacas dão pouco leite, e por que eu não pretendo mudar isso.
Se ainda não provou nada daqui, o doce de leite da vó Tude é por onde quase todo mundo começa. Ele levou Super Ouro no Mundial do Queijo do Brasil em 2024, mas isso é conversa pra outro dia.
